Não-resoluções de ano novo


Principal / quarta-feira, 11 de janeiro, 2017

Resoluções de ano-novo foram feitas pra gente quebrar.

Vamos supor o seguinte: faz pelo menos um semestre que você (apenas uma suposição) saiu dos trilhos. Parou de comer direito, não se exercita, e já nem dá mais bom dia pro porteiro porque ele certamente vai perguntar das aulas de yoga que você abandonou há meses. Deu outubro, novembro, e você vai deixando pro ano que vem, o que adianta recomeçar agora, não é mesmo? Em dezembro, a lista de coisas que você vai começar no ano que vem é enorme: levar marmita, aprender sânscrito, treinar 2x por dia e 6 dias por semana, ser uma pessoa melhor, dar dinheiro pra ONGs.

Chega o ano novo! Em primeiro de janeiro você é uma nova pessoa, um ser humano melhor, já até consegue sentir seu abdome trincando e a sua aura mudando de cor – mas deixa pra começar no dia 2, afinal hoje é feriado. Dia 2 de janeiro chega.

Você faz uma lista de afazeres pro dia. Treinar 2x por dia e fazer comida pra levar pro trabalho ainda parece perfeitamente executável. No fim do dia você está disposto e energizado, otimista, esse vai ser o seu ano. Você vai dormir. E no dia 3 de janeiro você acorda com uma dor muscular terrível. “No pain, no gain”, você pensa, mas não consegue levantar a tempo de ir para a academia, muito menos de preparar sua marmita fit. Você se arrasta pro trabalho, mas ainda consegue desviar do fast-food e fazer um pratinho bem saudável no quilão. O treino da noite é terrível, você não imaginava que até a raiz do seu cabelo fosse capaz de sentir dor. E por aí vai indo.

Cedo ou tarde você já largou de mão de tudo ou quase tudo, mas ano que vem tá aí.

Essa é uma história puramente ficcional (ou talvez tenha acontecido com a prima da vizinha da minha amiga), mas vocês entenderam onde eu quero chegar.

Resoluções de ano-novo falham. Mas dá pra entender por que.

E quem sabe, entendendo, a gente possa mudar o jogo em nosso favor.

  1. É muita coisa de uma vez. Criar hábitos novos não é uma coisa fácil, e tentar estabelecer vários ao mesmo tempo é praticamente uma receita pro fracasso.
  2. Muitas delas não vem de dentro, mas de uma pressão social, externa. Às vezes é difícil discernir o que é nossa vontade e o que é imposto a nós pela cultura, pela mídia, pela família. É bem difícil conseguir as coisas quando não é o que a gente quer de verdade, mas mesmo que se consiga, elas não trazem a plenitude esperada. Coisas como emagrecer, comprar um carro, formar família; não são todos os casos, claro, mas é bem comum que esse tipo de desejo venha mais de fora do que de dentro.
  3. Ao fim e ao cabo, primeiro de janeiro é só uma data. Eu acredito que sim, há um poder nos começos e recomeços, mas não tem nada de mágico: é o reconhecimento do fim de um ciclo, largar de mão do velho, do que não funciona, e tentar novamente. Se a gente não deixar o ciclo terminar, ele não vai recomeçar.

Como fazer resoluções que funcionam?

Não existe uma fórmula, e não confie em quem diz que tem. O que existe é trabalho interno, se reconhecer nos seus padrões, aprender a quebrá-los, devagar. Se resoluções de ano-novo não funcionam pra você, não tem nenhum livro de regras, nenhuma lei que te obrigue a fazê-las. É sério.

Bom, mas você quer mudar, né? Tudo bem se não quiser, mas se você leu até aqui um post sobre resoluções de ano-novo, eu suponho que quer, sim. Em sendo o caso, eu posso dar algumas sugestões, baseadas em coisas que deram certo comigo e que eu estou aplicando agora neste ano novo pra mim.

  • Uma coisa por vez. Reprogramar hábitos já é terrivelmente difícil, e querer mudar vários processos complexos de uma vez é se programar pro fracasso. Não tem disciplina ou força de vontade que aguentem parar de fumar, de comer carboidrato E de gastar dinheiro à toa, tudo ao mesmo tempo. Um hábito por mês é uma boa conta. O Leo Babauta do Zen Habits escreveu mais profundamente sobre esse método da mudança única; eu pretendo escrever também no futuro, ou só traduzir o que ele já disse muito bem, mas dá pra começar por lá.
  • Processos específicos funcionam melhor que metas genéricas. Parar de gastar dinheiro à toa é muito genérico; levar marmita pra não gastar no fast food e evitar passar no shopping é mais específico e fácil de seguir. 
  • Comece de onde está. Não há por que esperar a segunda-feira, o mês que vem, o ano que vem. Assim as coisas que você deseja mudar e os efeitos negativos delas só acumulam.
  • Mas também cuidado para não se sabotar deliberadamente. Não é uma boa ideia planejar uma mudança de dieta pra época das festas, por exemplo, ou planejar qualquer mudança pra uma situação que demande muito mais força de vontade do que o normal. Se você acabou de passar por uma situação de crise, de luto na família, se vai viajar ou se mudar, procure reestabelecer sua rotina primeiro, e só depois pense em mudança.
  • Mudar por amor é melhor do que mudar por medo. Não é uma boa ideia, por exemplo, emagrecer porque tem vergonha de usar um biquíni na praia. Mas alimentar-se bem e manter-se em movimento podem ser processos de construção e reconhecimento de amor próprio, de amor ao próprio corpo. Nesses termos, a mudança é permanente.

Eu espero de coração que a gente consiga tudo o que quer nesse ano, e se der tempo um pouco mais. Mas sem pressa; um maratonista chega sempre mais longe que um corredor de velocidade.

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