Prazer, eu me chamo Dani (ou: “desista assim que puder”)


Principal / quarta-feira, 24 de agosto, 2016

gaiola

Olá, prazer, eu me chamo Dani. Quero dizer, me chamo Danieli, mas pode me chamar de Dani. Eu sou uma desistente.

Eu só não fui para as olimpíadas porque, bem, desisti. Se você veio aqui esperando uma história de superação, daquelas repletas de frases de autoajuda, este não é bem o caso. Não quero também abrir espaço para frases desmotivacionais, apenas gostaria de contar um pouco da minha história e porque foi importante desistir de certas coisas para poder, hoje, me focar nessa coisa de desenhar e costurar, afinal nem sempre fiz só isso.

Eu desisti de várias coisas ao longo da vida. Desisti da programação, meu primeiro ensaio de profissão, já bem cedo. Desisti de dois cursos técnicos, e desisti de trabalhar na área do terceiro, em que me formei. Desisti de uma faculdade (para a qual voltei dez anos depois, exatamente no mesmo curso e instituição, mas isso é outra história). Desisti de um emprego público concursado. Desisti de várias outras coisas menores e maiores, em grau definitivo ou temporário, ao longo dos anos. Desisti de costurar, porque dava muito trabalho. E voltei a costurar, porque precisei – e, depois, porque me reapaixonei. Tudo o que faço hoje é o que sobrou da série de coisas que já desisti de fazer. Não é fácil discernir entre o que vale ou não a pena seguir investindo, e ninguém pode responder por você. Frequentemente eu não consigo responder nem por mim mesma.

 Depois que ampliei meu entendimento sobre a vida, o universo e tudo mais passei a ser uma defensora da desistência. Não fico se estiver ruim, se não tiver tesão, se notar que não é o que quero. Não tenho aquele fogo que me obriga a ir até o fim só porque comecei. Não sou obrigada

De tudo que você faz, o que é importante para você mesma, e não só para outras pessoas? Quanto disso você faz porque quer, porque realmente precisa, e quanto porque apenas acha que deve? Aprendi que esses lemas de produtividade, esses que pedem com caras emburradas que não há ganho sem dor ou que não se pode desistir surgem fácil na boca de quem olha pra trás e se vê já no topo de alguma carreira onde os percalços foram quase providenciais. O sucesso precoce é extremamente raro, mas é o que mais aparece (justamente por ser raro).

Sou filha, irmã e amiga mas isso não me define, não me comporta. Não sou uma espécie de não-designer ou não-programadora, o que se foi, se foi. Ainda assim carrego em mim meu duplo, minha negação. Melhor que isso: não sou nada disso e, ao mesmo tempo, sou tudo isso.

Não sou só a mulher cujas medidas não são contempladas pela indústria. A que faz vestidos com bolsos, que se preocupa com uma cadeia produtiva racional e com o consumo consciente (da minha maneira). Sou isso tudo. Sou brasileira e desisto sempre.

Desisto quando vejo os furos na canoa. Fujo o que posso do piloto automático. Desistir também é resistir.

Desista mais, desista melhor, desista sempre. E, se quiser, desista de mim sim, que eu vou entender.

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