O karma do consumidor, ou: sobre consumo consciente


Principal / sexta-feira, 19 de agosto, 2016

buyme
Minha visão sobre a cadeia produtiva que nos permite ter belos vestidos com bolsos da Madeleines já foi exposta noutro post, quero aqui partir de um ponto levantado lá aproveitar e expor o que penso sobre consumo consciente.

Como disse, “há uma nova onda no consumo que os perpétuos críticos do capitalismo dizem ser uma nova roupagem para que o sistema se mantenha e perpetue”. Simulamos por anos uma ostentação de opulência como se isso fosse propaganda de certa nobreza, fabricamos em nós a simulação de capital cultural, propagandeamos símbolos, não de forma irônica, para subversão, mas querendo mesmo ser daquele grupo em que os diversos capitais se concentravam.

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A crítica que hoje se faz é exatamente sobre essa visão romântica de redenção do mundo capitalista e seus meios de produção no ato de pagar mais pelos produtos oferecidos quando prometem certa pureza em sua cadeira produtiva ou afirmem devolver parte dos lucros para instituições e projetos de assistência. Pagar mais. Isso mesmo. E eu concordo com a crítica que se faz a essa lógica e defendo o direito dela ser colocada na roda da discussão. Porque afinal é uma estratégia muito bem bolada para, com isso, também lucrar mais.

Sustentabilidade não é aquela visão radical de que a humanidade precisa se eliminar para que a natureza tome seu rumo, porque somos também parte dessa natureza. Consumo consciente, alinhado à sustentabilidade, tem muito mais a ver com racionalização no uso de recursos do que adquirir produtos com diversos significados impressos sendo que o conteúdo pode ser que nem nos agrade. É entender que o ato do consumo pode também transformar sua realidade.

Claro que podemos procurar consumir orgânicos e comprar produtos de empresas que se empenham em impactar pouco seu contorno natural, mas isso não deveria se tornar uma obsessão. É não sofrer quando não houver (ou não tiver acesso à) alternativa. É não julgar até os ossos de quem não faz como se essa pessoa tivesse eternamente condenada a um inferno verde.

Sobre a consumidora consciente, consigo resumir o texto do Ministério do Meio Ambiente sobre o tema em três pontos de atenção: impacto no meio ambiente, impacto em animais humanos e não-humanos e, principalmente, atenção nas relações de trabalho. Um vestido produzido por mim, por exemplo, além do impacto da produção têxtil, que eu não consigo controlar, gera o mínimo possível de descarte. Parte dos retalhos é doada para artesanato, parte é usada pela minha tia Si para fazer roupas de criança para doação, e o que sobra é usado para limpeza. Sobre o impacto em animais, bem, meus vestidos são testados apenas no meu gato Leôncio. E quanto às relações de trabalho, eu já expliquei como a gente opera num post dedicado a isso.

kruger

Um vestido Madeleines não vai carregar positivamente ou eliminar a energia negativa em seu karma de consumo, não é uma mandala de ajuda. Eu estou te oferecendo um vestido bonito com bolsos por um valor que considero ser justo com o trabalho envolvido e com a cadeia produtiva que se move. É um ato de amor porque costuro pensando na música que a pessoa pode dançar com aquela peça, porém também é trabalho. E o trabalho demanda pesquisa, matéria-prima e entrega.

Ainda assim há espaço para alguém que queira costurar para si e para suas amigas. Não é o vestido que vai salvar o mundo, somos nós, em nossas ações diárias para transformar nossas realidades. Usar um vestido bonito com bolsos nesses momentos é opcional (e aconselhável).

As imagens todas deste post são da Barbara Kruger, artista plástica americana, que trabalha, entre outras coisas, a questão do consumismo, usando em parte a própria linguagem da publicidade. Mais sobre ela aqui.

One thought on “O karma do consumidor, ou: sobre consumo consciente

  1. Estamos vivendo um consumismo desenfreado. Na verdade tudo que é exagero não faz bem para o ser humano. Porém, se tratando da humanidade, historicamente falando, sempre houve esta busca insana por mais e mais, quero dizer que isso faz parte da mente humana, a busca pelo o que não possui, ou a busca pelo que o outro tem, e isso faz mal, porém, se direcionarmos isso de uma maneira “ética”, podemos trazer benefícios.

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